quarta-feira, 17 de setembro de 2014

SONHO E IMAGINAÇÃO - Um filme para o futuro

                                                                                                      Por Charles Gean



Imagine que você está subindo a ladeira que liga a Praça J. J. Seabra até a Praça do Rosário. Inevitavelmente a Igreja vai ganhando cada vez mais o primeiro plano na sua perspectiva de visão. De uma das portas laterais da Igreja uma mulher sai de costas como num movimento contrário, e entra num carro que sai e passa ao seu lado, descendo a ladeira em marcha ré. Naturalmente você acha aquilo estranho e continua se aproximando até poder ver o interior da Igreja, e, disfarçadamente a observa de fora para dentro. O que você vê é um homem balbuciando e se benzendo, fazendo um sinal da cruz de baixo para cima, começando dos ombros, depois peito até a cabeça, com a mão, num desenho inverso.

Até aqui nada nessa cena é impossível, embora pouco provável que aconteça na vida real. Mas eis que um vento traz o impossível e o improvável acontece quando, inacreditavelmente, você vê algumas folhas retornarem para os galhos das árvores com a mesma gravidade que as atraiu para o chão. Em frente à porta principal no ponto central da Praça um redemoinho gira num sentido que você já não sabe se é o horário ou anti-horário. A primeira coisa que você pensa é comentar com alguém que esteja passando no mesmo lugar e no mesmo momento. Não havendo alguém próximo, o único jeito é você ir até uma das casas, a primeira com a janela aberta, chamar alguém e comentar sobre o fato. Pela janela da casa dá pra ver uma mesa posta com pães, cuscuz, beijus, pratos e xícaras com café, mas ninguém em volta. Ao ver a fumaça retornando para dentro da xícara com café quente você ergue a mão para alcançar a campainha, mas o som da campainha soa antes de você pressionar o botão, invertendo assim a ordem de causa e efeito. Durante alguns segundos faz silêncio. O único ruído que se ouve é o de um relógio antigo na parede, cujo ponteiro gira ao contrário. Você desiste e sai caminhando aleatoriamente, observando cada movimento.

Agora imagine que todas essas cenas para serem reais precisariam de uma razão, ou seja, de uma causa. Considerando que a causa vem antes do efeito e o efeito explica a causa, logo você se pergunta: Pode o som de uma campainha ser a causa do dedo no botão? Não. Assim também o vento não explicaria o efeito das folhas entornando do chão até os ramos da árvore. Até aqui podemos pensar sobre qual seria a causa desses efeitos nessas cenas, o que seria improvável, mas não impossível e o que seria impossível de acontecer na vida real. Por acaso a fumaça do café quente retrocedendo para dentro da xícara seria impossível ou possível na vida real? Evidentemente que seria impossível e por isso mesmo improvável.

Analisando racionalmente essas cenas, você está diante de questões sobre causa e efeito, impossível e possível, improvável e provável, irreal e real. Esse tipo de questionamento leva você a concluir que tudo isso só é possível sendo um sonho, então você aceita que isso não é real e se convence de que é um sonho. Mas, consciente de que tudo é um sonho, você passa a ter o controle da situação e o impossível passa a ser provável de acontecer. A razão dos fatos já não é tão importante, nem tão pouco a força que gravita sobre as folhas das árvores e sobre você mesmo.

Agora imagina que virando a esquina no sentido de quem retorna do seu percurso inicial da cena, ao invés de se deparar com a Praça J. J. Seabra, você sai na BR 242 num daqueles postos de combustíveis onde várias pessoas fazem uma parada no meio da viagem. Tem um hippie sentado na calçada, pintando uma tela. Você se aproxima e percebe que o que ele projeta na tela é você chegando àquele local exatamente como você chegou, num desenho perfeito. Essa cena tem tudo a ver com o que você deseja sentir nesse lugar: contemplar uma obra de arte feita na tela. O desenho vai ganhando contornos já esperados por você que tem o controle da situação. O pincel desliza pela tela como se ele mesmo conduzisse a mão do artista. Vamos considerar que o tempo aqui simplesmente existe e ele é relativo, por isso é natural que a sua chegada ao posto da BR 242 já tinha sido desenhada antes de você chegar e que estava apenas sendo aprimorada e você queria observar o aperfeiçoamento. O que temos agora é a ausência de passado, presente e futuro que conhecemos, na forma como conjugamos os verbos nos três tempos. Aqui esses tempos não existem, existe apenas o que já está consumado e o que é eterno. Portanto o que está consumado é o que já é, mesmo que ainda não tenha acontecido fisicamente. É o que você está vivenciando agora na BR com o controle da situação em suas mãos e em sua mente.

O que você quer agora é aventura. Então vamos comigo agora pela aventura na estrada. Eu sou o motorista de uma carreta e te dou carona em direção à Chapada Diamantina porque assim sua mente o quer. Eu ligo o som que toca a música que você pensou (pensou está escrito no passado, pois já está consumado), porque música tem tudo a ver com essa situação. O momento da nossa saída e da nossa chegada em determinados pontos da viagem nada tem a ver com a relação entre distância e velocidade, tem a ver com sua vontade que determina onde, quando e o quê.

Pense que agora você e eu estamos subindo uma ladeira e a velocidade aumenta até decolarmos, ganhando o céu infinito. Para dar mais sentido pense que agora eu sou um piloto e à nossa frente o pára-brisa é uma tela de cinema projetada por sua mente, porque cinema tem tudo a ver com essa situação. Voamos por um longo momento, enquanto assistimos a uma película de aventura e muita adrenalina


                                                          


Prepare-se agora para o pouso e para a próxima e última aventura. Você já viu um artista plástico pintar uma obra, já ouviu música em uma carreta, e viu cinema em pleno voo. O que seria ideal para uma peça de teatro? Até aqui sua mente associou os prazeres proporcionados por cada expressão artística com os movimentos dos diferentes transportes e paisagens. Como se cada uma dessas artes, pintura, música e cinema fosse uma espécie proposição de enigmas que para serem decifrados, devem ser vistas em ambientes e situações ideais ou que aconteçam onde for necessário para que o nosso dia-a-dia não se torne um contra-senso. Pensando nisso voltemos ao nosso pouso surreal para onde sua mente projetou a peça de teatro. Aterrissamos em uma estação de metrô e lá estava a arte cênica interpretando a vida e nos provando que o improvável é a melhor porção dos nossos sonhos e que o impossível é o efeito da nossa falta de fé. 

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