quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Futebol Política e Civilidade

Manifestar-se é mais do que legítimo, é uma conquista democrática. Expor  as nossas ideias, sejam elas políticas, filosóficas ou religiosas é um direito que não devemos abrir mão. Quando vamos para as ruas gritar e exibir faixas, é importante sabermos onde queremos chegar e o que queremos conquistar. A nossa tão jovem Democracia foi conquistada assim. Jamais depredamos patrimônios, arrebentamos bancos e nem quebramos lojas para conquistar liberdade política. O que estão querendo esses rebeldes sem causa que quebram tudo? Quais são suas bandeiras? eles estão apoiados sobre que plataforma política? reforma agrária ou latifúndio? reforma política ou manutenção da estrutura? inclusão social ou segregação? socialismo ou capitalismo? Nada está claro, a única vontade que expressam é a de causar prejuízo à alguém que eles nem conhece. Revolucionários não são. Rebeldes sim. Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Um revolucionário planta e colhe bons frutos. Um rebelde engole um mosquito e quer arrotar um camelo. Seja lá que defesa for, esse tipo de manifestação sem norte não nos trás nada de positivo, nenhum avanço será conquistado.
Enquanto isso dentro dos estádios rolam as disputas. Competimos no Esporte porque não queremos competir na guerra. Melhor o campo de futebol do que o campo de batalha. Melhor o combate político justo do que terrorismo injusto. Somos seres sociais, mas também seres competitivos e os torneios são uma ótima maneira de nos comparar. O esporte aproxima os povos. Por isso gostar de futebol e prestigiar um evento não faz de ninguém um alienado. Alegria não é sinônimo de alienação.
É claro que não podemos ser ingênuos. Sabemos que existem interesses financeiros. Não passa despercebido o fato de se ter três Copas seguidas em países de economia emergente, incluindo a última na África do Sul, essa no Brasil e a próxima na Rússia. Três países com democracias recentes. Por que não em um país já preparado pra receber o evento, com estádios prontos e mobilidades urbanas já desenvolvidas, onde se elege sede hoje e começa o evento amanhã? Simples! Porque tem que ter obras, tem que ter grana evolvida e política também. Mas o Brasil conquistou avanços pra depois ser sede da copa, sem avanço não seria possível.
Nem preciso falar dos insultos à presidenta Dilma. Sem respeito humano não há avanço nem civilidade. E pra você que é brasileiro e que gosta de futebol ou não, até à vitória nos gramados, a paz nas ruas e a democracia na política. 

                                                                                                                                     20 de Junho de 2014

Quero ver a Copa

Eu não tenho vergonha da copa. Muito pelo contrário. Por que eu haveria de ter? Porque o Brasil é um país com desigualdades sociais? porque existe corrupção? Isso existe mesmo. Mas o que é mais feio, permitir que o mundo conheça nossos problemas ou querer acoberta-los? O mundo já tá cansado de saber que aqui não é Europa. Todos podem, devem e vão nos conhecer melhor, tanto nossos defeitos quanto nossas qualidades que são muitas. Pior é pensarmos que nossas mazelas devem ficar encobertas. Vamos fazer o que podemos e o que sabemos e vai ter copa.
 É complicado imaginar que o maior evento do esporte mais popular do mundo seja realizado apenas em países de 1° mundo, países esses que já tem índices de desemprego até seis vezes maiores que o do Brasil. Em 2010 a África do Sul deu ao mundo uma demonstração de como um país subdesenvolvido ou em desenvolvimento pode realizar uma Copa do Mundo com a bandeira do NÃO AO RACISMO.
Aquela que foi a primeira copa realizada no esquecido e ignorado continente africano, também trouxe outras curiosidades. O alegre futebol de Gana e o tecnocrático futebol da Alemanha se enfrentaram e trouxeram a campo os irmãos Boateng, um defendendo a nação ganense e outro vestindo a camisa da Tricampeã Alemanha. A seleção de Gana cuja maioria dos jogadores jogava no continente que havia escravizado seus avôs não resistiu.
Quem não se lembra de Paul, aquela estrela que surgiu das profundezas do oceano para brilhar como vidente e antecipar os resultados dos jogos? Aquele polvo visionário, tão detestado por uns e aplaudido por outros, espantou o mudo com suas revelações profética. Tinha até quem o caluniasse: esse polvo é um corrupto! 
Ali mesmo nos gramados sul-africanos a Espanha ergueu pela primeira vez o caneco e sagrou-se campeã, para entrar para o seleto grupo de campeões mundiais.
E nós, o que vamos oferecer ao mundo? O que a Copa das Copas vai fazer de nós e o que nós vamos fazer da copa que ainda não foi feito por nenhuma nação. Criaremos novos mitos? Surgirá um novo heroi? Despertaremos paixões? Teremos que aguentar uma nova tragédia?
 Como diz a música do Rappa "Eu quero ver gol", o que não significa que eu não tô aí pro meu País. Quero ver saúde, quero ver educação, quero ver segurança ,  quero um país sem corrupção, mas quero ver a copa.
 A corrupção é o que dói. Mas não tá exclusivamente na política, ela está aí no boteco, na mentira, no jeitinho pra conseguir algo simples, levar vantagens em tudo etc. É uma história de "corruptinhos" e "corruptões". 
E eis o vigésimo campeonato mundial de futebol, no país do futebol. Já comprei até minha camisa para torcer e acho que somos favoritos porque somos os melhores, mas tudo pode acontecer, afinal o erro faz parte do jogo e errare humanum est.

É Doce Morrer no Monte

                                                                                                                   Por Charles Gean

Eu estava na minha casa em Itaberaba tirando um cochilo quando comecei a ter um estranho pesadelo. Dirigia pela avenida Rui Barbosa super movimentada até chegar no semáforo do Centro. Naquele local havia um burburinho e um homem pedindo socorro dizendo.
- Socorro! Peguem esses ladrões.
Parei o carro e perguntei-lhe o que se passava. Ele me disse que Ronaldo Fenômeno e Dercy Gonçalves haviam se hospedado no Hotel Morro das Flores e fugido em uma moto, sem pagar a conta. Dissera-me também que eles teriam passado pelo Mercado Velho e roubado uma rapadura, um pacote de fumo e outras coisas mais. Fui tomado por uma fúria animal e saí na direção que o povo apontava. Subi a Av. Brigadeiro a todo gás e em poucos segundos encontrei os dois subindo a Ladeira do Monte a pés. Ronaldo carregava uma sacola e dava a mão a Dercy com dificuldade de subir. A moto quebrada ficou no meio do caminho.

Era fim de tarde, curiosamente, na mesma hora do lado de cá do sono, e o sol estava se pondo atrás do Monte. Apanhei uma espingarda no fundo do carro, mirei nos dois caloteiros e antes que os dois chegassem à Igrejinha e fizessem o pobre do padre de refém ou se jogassem da Pedra do Vaqueiro para virarem lendas, eu os acertei em cheio com precisão. Uma nuvem de chumbo os derrubou com um grito lúgubre assustando as aves do arrebol. Rolaram ladeira abaixo, abraçados, vindo parar aos meus pés. Dercy perguntou – é um filme essa p...? – Sem dar tempo para que ela soltasse seu último e doce palavrão com sua boca cheia de rapadura, eu dei o tiro de misericórdia. Ronaldo suando de pavor e rindo diabolicamente, deixou sua última frase com um baita pedaço de rapadura na boca: “É doche moier no Monte”. Ainda dei vários disparos para cima.

Era mês de junho, acordei com um barulho de fogos da vizinhança, bem parecido com os tiros secos da espingarda. Um caso típico de projeção, quando o subconsciente simula uma situação para dar sentidos a algum ruído estridente ou movimento, enquanto dormimos, e assim não ter que acordar. Peço desculpas a Ronaldo e a Dercy. Só quis mostrar pra eles que rapadura é doce, mas não é mole não.

SONHO E IMAGINAÇÃO - Um filme para o futuro

                                                                                                      Por Charles Gean



Imagine que você está subindo a ladeira que liga a Praça J. J. Seabra até a Praça do Rosário. Inevitavelmente a Igreja vai ganhando cada vez mais o primeiro plano na sua perspectiva de visão. De uma das portas laterais da Igreja uma mulher sai de costas como num movimento contrário, e entra num carro que sai e passa ao seu lado, descendo a ladeira em marcha ré. Naturalmente você acha aquilo estranho e continua se aproximando até poder ver o interior da Igreja, e, disfarçadamente a observa de fora para dentro. O que você vê é um homem balbuciando e se benzendo, fazendo um sinal da cruz de baixo para cima, começando dos ombros, depois peito até a cabeça, com a mão, num desenho inverso.

Até aqui nada nessa cena é impossível, embora pouco provável que aconteça na vida real. Mas eis que um vento traz o impossível e o improvável acontece quando, inacreditavelmente, você vê algumas folhas retornarem para os galhos das árvores com a mesma gravidade que as atraiu para o chão. Em frente à porta principal no ponto central da Praça um redemoinho gira num sentido que você já não sabe se é o horário ou anti-horário. A primeira coisa que você pensa é comentar com alguém que esteja passando no mesmo lugar e no mesmo momento. Não havendo alguém próximo, o único jeito é você ir até uma das casas, a primeira com a janela aberta, chamar alguém e comentar sobre o fato. Pela janela da casa dá pra ver uma mesa posta com pães, cuscuz, beijus, pratos e xícaras com café, mas ninguém em volta. Ao ver a fumaça retornando para dentro da xícara com café quente você ergue a mão para alcançar a campainha, mas o som da campainha soa antes de você pressionar o botão, invertendo assim a ordem de causa e efeito. Durante alguns segundos faz silêncio. O único ruído que se ouve é o de um relógio antigo na parede, cujo ponteiro gira ao contrário. Você desiste e sai caminhando aleatoriamente, observando cada movimento.

Agora imagine que todas essas cenas para serem reais precisariam de uma razão, ou seja, de uma causa. Considerando que a causa vem antes do efeito e o efeito explica a causa, logo você se pergunta: Pode o som de uma campainha ser a causa do dedo no botão? Não. Assim também o vento não explicaria o efeito das folhas entornando do chão até os ramos da árvore. Até aqui podemos pensar sobre qual seria a causa desses efeitos nessas cenas, o que seria improvável, mas não impossível e o que seria impossível de acontecer na vida real. Por acaso a fumaça do café quente retrocedendo para dentro da xícara seria impossível ou possível na vida real? Evidentemente que seria impossível e por isso mesmo improvável.

Analisando racionalmente essas cenas, você está diante de questões sobre causa e efeito, impossível e possível, improvável e provável, irreal e real. Esse tipo de questionamento leva você a concluir que tudo isso só é possível sendo um sonho, então você aceita que isso não é real e se convence de que é um sonho. Mas, consciente de que tudo é um sonho, você passa a ter o controle da situação e o impossível passa a ser provável de acontecer. A razão dos fatos já não é tão importante, nem tão pouco a força que gravita sobre as folhas das árvores e sobre você mesmo.

Agora imagina que virando a esquina no sentido de quem retorna do seu percurso inicial da cena, ao invés de se deparar com a Praça J. J. Seabra, você sai na BR 242 num daqueles postos de combustíveis onde várias pessoas fazem uma parada no meio da viagem. Tem um hippie sentado na calçada, pintando uma tela. Você se aproxima e percebe que o que ele projeta na tela é você chegando àquele local exatamente como você chegou, num desenho perfeito. Essa cena tem tudo a ver com o que você deseja sentir nesse lugar: contemplar uma obra de arte feita na tela. O desenho vai ganhando contornos já esperados por você que tem o controle da situação. O pincel desliza pela tela como se ele mesmo conduzisse a mão do artista. Vamos considerar que o tempo aqui simplesmente existe e ele é relativo, por isso é natural que a sua chegada ao posto da BR 242 já tinha sido desenhada antes de você chegar e que estava apenas sendo aprimorada e você queria observar o aperfeiçoamento. O que temos agora é a ausência de passado, presente e futuro que conhecemos, na forma como conjugamos os verbos nos três tempos. Aqui esses tempos não existem, existe apenas o que já está consumado e o que é eterno. Portanto o que está consumado é o que já é, mesmo que ainda não tenha acontecido fisicamente. É o que você está vivenciando agora na BR com o controle da situação em suas mãos e em sua mente.

O que você quer agora é aventura. Então vamos comigo agora pela aventura na estrada. Eu sou o motorista de uma carreta e te dou carona em direção à Chapada Diamantina porque assim sua mente o quer. Eu ligo o som que toca a música que você pensou (pensou está escrito no passado, pois já está consumado), porque música tem tudo a ver com essa situação. O momento da nossa saída e da nossa chegada em determinados pontos da viagem nada tem a ver com a relação entre distância e velocidade, tem a ver com sua vontade que determina onde, quando e o quê.

Pense que agora você e eu estamos subindo uma ladeira e a velocidade aumenta até decolarmos, ganhando o céu infinito. Para dar mais sentido pense que agora eu sou um piloto e à nossa frente o pára-brisa é uma tela de cinema projetada por sua mente, porque cinema tem tudo a ver com essa situação. Voamos por um longo momento, enquanto assistimos a uma película de aventura e muita adrenalina


                                                          


Prepare-se agora para o pouso e para a próxima e última aventura. Você já viu um artista plástico pintar uma obra, já ouviu música em uma carreta, e viu cinema em pleno voo. O que seria ideal para uma peça de teatro? Até aqui sua mente associou os prazeres proporcionados por cada expressão artística com os movimentos dos diferentes transportes e paisagens. Como se cada uma dessas artes, pintura, música e cinema fosse uma espécie proposição de enigmas que para serem decifrados, devem ser vistas em ambientes e situações ideais ou que aconteçam onde for necessário para que o nosso dia-a-dia não se torne um contra-senso. Pensando nisso voltemos ao nosso pouso surreal para onde sua mente projetou a peça de teatro. Aterrissamos em uma estação de metrô e lá estava a arte cênica interpretando a vida e nos provando que o improvável é a melhor porção dos nossos sonhos e que o impossível é o efeito da nossa falta de fé.